domingo, 8 de abril de 2012

Da vaidade, agora na realidade.


Acho que já falei aqui sobre vaidade (e não vou reler tudo pra saber onde e de que jeito, que o tempo é curto e a preguiça é longa). Só sei que, nos dias de hoje, essa palavrinha filha-da-puta me persegue e ganha uma dimensão que dá coceira até no meio da noite. Já perdi a conta de quantas vezes fui e sou cobrada pela falta de vaidade. Meu marido, minha vó, minha mãe postiça. A tríade que-só-quer-meu-bem não cansa de falar - e daí cansa, dá bronca, diz que não vai mais tocar no assunto, pra depois voltar a falar. Tenho travado uma luta interna grotesca com a tal falta de vaidade a que se refere meu pessoal querido e não chego a conclusão nenhuma. É que minha vaidade sempre foi estranha, em parte incompreensível, em parte incompreendida. Mas ei, eu era bonitinha, gostosinha, então as roupas furadas e as botinas (muito) sujas surgiam até como charme pra algumas pessoas; pra outras mais esclarecidas não passavam de desleixo, mas, de novo, ei: eu era bonitinha, gostosinha, então ok, let her be.

A verdade é que eu era, sim, bem vaidosa. Dentro do meu "estilo", sempre que entrava num elevador com espelho a auto-fixação era óbvia. Me olhava de frente, de costas, do rabo do olho. Sabia exatamente como tava a bunda, a boca, o nariz, o caimento da manga no ombro. Conhecia meus melhores ângulos, checava cada detalhe e, na questão de três andares que fossem, já conseguia sair do cubículo consciente de cada centímetro de mim mesma - e me achando profundamente: agora os olhos do mundo são meus.

Hoje, mãe de dois moleques que poderiam ter inspirado o Ziraldo a escrever "Menino Maluquinho", entro num elevador com espelho olhando pra baixo. Isminha, não empurra seu irmão na porta que tá fechando! Tom, não pega o chiclete que tá grudado no chão pra pôr na boca, seu PORCO! Gente, não aperta o alarme do elevador!!! Fodeu, cê apertou, filhinho da puta, a polícia vai prender a mamãe! Cê quer ficar sem sua mãe???? Então SOSSEGA O RABO, moleque da porra!!! Isminha, calça o sapato de novo! Tamo chegando no térreo!!! Não, não aperta o número 3 só porque é sua idade! Tom, cadê você?!! Filho, volta pro carrinho, pelo amor de deus, que a mamãe tem só meia hora pra passar no banco e no cartório antes da reunião das 15h... 

Quando o elevador bate no térreo, é hora de guerra, não de olhar no espelho. Mas se, ainda assim, eu me lembro de levantar os olhos enquanto empurro a porta com a bunda pra puxar o carrinho e dar a mão pro mais velho, o que eu vejo é simples e único: OLHEIRAS.

Oh, boy. Outro dia o apelo veio da Niuka (pra quem não sabe, minha mãe postiça, melhor amiga da minha mãe desde os 15 anos, que nunca casou nem teve filhos, mas parece que (não) fez tudo isso porque sabia que um dia ia ter que cuidar de mim e dos meus pequenos, além das outras mamães e filho(a)s lindo(a)s que ela presenteia com o simples fato de existir). "Bianca, que cabelo é esse?!", no meio da pizzaria, quando eu cometi o deslize de soltar o coque-eterno enquanto corria atrás do Tom e dava esporro no Isminha pra ele ficar sentado e comer a merda da pizza de lingüiça (sim, o tempo passou, mas eu mantenho as tremas). E, verdade seja dita, fazia 10 meses desde meu último corte de cabelo. Shame on me. "Tá parecendo crente. E você tá tão magra que seu braço mais parece uma tripinha." AAAAAHHHHHHH!!!!!!!

E aí vem o maridôncio. Tem hora que me entope de vitaminas tão espessas que preciso tomar de colher - banana, maçã, fibra disso e daquilo, iogurte, proteína e (por que não?) um punhado de couve; tem hora que abre a porta de casa e fecha a cara porque são onze e meia da noite, ele chegou esperando ganhar massagem de uma débora sêco home-made e eu nem banho tomei ainda, com os cabelos desgrenhados e a blusa cheia de dedinhos de chocolate. 

Saio do fatídico elevador, atravesso a Paulista, pego um táxi em que vou gritando por 20 minutos seguidos: Tom, não abre a porta, que a gente vai cair e morrer! Isminha, senta a porra da bunda no banco! Não, o moço do táxi não é o inimigo do Batman, não pode apertar o pescoço dele! Olha o ônibus, que legal! Não, não põe a cabeça pra fora pra olhar o ônibus! Segura o xixi, tamo chegando! Tom, devolve as moedas do moço! Tom, não engole as moedas do moço!! Tom, não vomitaaa!!!!!! 

E chegamos na casa da bisa, pago o taxista mal-humorado (não se sabe por quê), abro um sorriso grande e a primeira coisa que ouço? "Filhinha, que olheira! Você tá comendo? Ai, Bianca, pelo amor de Deus, compra uma roupinha melhor... Você sabe que homem que não encontra o que quer em casa vai atrás em outro lugar!"

PUTA QUE ME PARIU!!!!!!! Desculpaê, mãe, descansa em paz, mas puta que me pariu. Ando numa vontade sem fim de ficar chique, elegantona, estilosa, coisa e tal. Ontem passei no shopping pra comprar um presente-de-privada pro Isminha, que FINALMENTE largou a fralda, e vi ao longe a vitrine da Zara. Achei tudo lindo, vestiria tudo, sem o mínimo senso de haute-couture. Me lembrei de uma cliente chiquérrima, dona de um bistrô francês na Bela Cintra, que falou que M. Officer era "uó", que ela preferia comprar na Zara. Ai, gente, deve ser foda ser chique assim. Ela também tinha dois filhos - e duas babás, duas avós, muito dinheiro e uma boa cozinheira em casa. Enfim, vi de longe a tal vitrine, antes de me atracar numa briga sem fim entre quem ganharia o Senhor Destino e quem ganharia o DVD dos esquilinhos do caralho na Saraiva Mega Store. Já estava cansada e ainda tinha que passar no Extra da Brigadeiro pra comprar a comida do cachorro antes de voltar pra casa (pra quem não sabe, ir no Extra Brigadeiro é o primeiro candidato no meu ranking "Top 3: Inferno pra quê, se já dá pra se foder aqui mesmo?!").  

Domingo de Páscoa, maridão exilado em Campinas pra cobrir a ausência-dengue de um funcionário febril, acordei às 6h30 de preocupação: meu deus, o que vou vestir NA VIDA???? (e sim, no meio dessa delonga toda eu trabalho, escrevo, atendo telefonemas e sou groovy, merci). Mas como minha vó passou mal a noite inteira e foi parar no hospital pra tomar soro, peguei os moleques e desci pelo elevador sem pensar muito (e, claro, sem olhar no espelho). Resultado: passei o dia de calça fusô cinza, camisona preta de caveira e com uns sapatos roxos nada-a-ver, cuidando da minha vó, que tinha voltado de madrugada pra casa. Juro que ela, com sua camisola de arrrrgodão e uma palidez recém-colhida de quem só não vomitou o cu porque ele tá bem preso onde-tem-que-estar (ouviram bem, meninas?), tava mais "aprumadinha" do que eu. E ficamos lá o dia todo, eu e meus meninos maluquinhos, tentando ajudar em alguma coisa enquanto o resto da família - e do mundo - comemorava o domingo de páscoa. Ai, ai, pra não perder o hábito, como eu odeio essa história toda de jesus cristo e o caralho. 

Mas enfim, diagnóstico cansado o meu. Sim, perdi por completo a noção de vaidade. Sim, minha pele tá uma merda, manchada de gravidez(es), cigarro e sol sem protetor; sim, minha cara tá surrada e velha, depois de tantos vires e porvires da vida, que ninguém merece ouvir aqui, pelo menos agora; sim, eu tô magra, nem tanto pela falta de comida e pelo kung fu esporádico quanto pela correria de quem trabalha, cozinha, limpa e cuida de dois filhos em tempo integral, até que surjam das cinzas a nova escolinha e uma assistente de escritório; siiiim, minhas roupas estão uma merda e eu não encontro tempo pra parar numa loja e cuidar disso. Pior: não encontro tempo nem coragem, porque quando tenho 300 reais em mãos pra usar com o que eu bem entender, tem a comida do cachorro, as cuecas do Isminha, o leite do Tom, a conta atrasada do celular. Ei, quanto custa mesmo uma porra de calça na Zara?! Pois bem.

Sim, gente, ainda sou vaidosa. E quando é meia-noite e quinze, os filhos dormem e o marido está fora da cidade, eu finalmente paro na frente do espelho. Vejo cada ruguinha nova no canto dos olhos, estico, viro chinesa por dez segundos. Solto o cabelo (que cortei essa semana, depois da comida de rabo da Niuka) e prendo de novo, que essa coisa de ficar com o cabelo preso o dia inteiro deixa tudo tão amassado que mais vale esperar amanhecer. E aí vejo as olheiras, o rosto meio encovado, a barriga seca - qualquer semelhança com a caveira da camisona é mera coincidência. Lembro que já passa de meia-noite e ainda não tomei banho. Mas, encore, hoje o maridão não volta, as crianças dormiram e o coelhinho da páscoa já virou novela. Minha vaidade, pura e exata, é sentar e escrever. Amanhã o dia começa cedo, com uma lista de página dupla no trabalho e dois moleques cheios de energia - e ainda sem escola. Eu sei, eu sei. Nada é desculpa pra minha falta de vaidade. Só que com esse nível de cansaço, meu povo, tem hora que o mínimo de vaidade me parece luxo. Um luxo que, à meia-noite e tanto, eu não posso me permitir - e que talvez me acorde de sobressalto, de novo e ofegante, às seis da manhã. Outono-inverno da Zara, here I come. Pelo menos em sonho. 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Dos aprendizados


Faz uns poucos meses, Isminha entrou na era dos desenhos animados. Michael Jackson finalmente descansou em paz para dar lugar a Batman, Homem Aranha, Kung Fu Panda, Toy Story e A Pequena Sereia. Enquanto nossa DVDteca aumenta a passos largos e a gente contribui cada vez mais para o crescimento da indústria da pirataria (porque não há bolso que agüente alimentar o imaginário infantil quando o assunto é desenho animado original longa metragem), ficam alguns aprendizados:

- Até achar um box de desenhos do Homem Aranha que me parecem perfeitamente inofensivos, o pai sentava com o menino para assistir a algumas versões assustadoras de Batman. Cabeças degoladas, sangue, tiros, porrada, braços arrancados, mais sangue, trilha sonora mórbida, sangue e sangue. Saio do banho e tá o pequeno tenso, apertando a mão do pai, os olhos vidrados na TV. Lição 1: não, não dá pra ver desenho de gente grande a partir dos 2 anos de idade. A criança fica mesmo HORRORIZADA.

- Os desenhos da Disney moderna são todos “inhos”: lindinhos, fofinhos, engraçadinhos e politicamente corretinhos. Aí decidi comprar o Pinóquio, só pra relembrar minha infância e ver se o Isminha gostaria tanto quanto eu gostava. Pois bem. Acho que a Disney antiga NUNCA passaria pela nota de corte da nova. Durante o filme, cujo ritmo é devagar-quase-parando, o simpático Pinóquio fuma charuto, bebe cerveja e ainda amarra uma pedra no pé pra pular no oceano em ato suicida a fim de resgatar o Gepetto, que foi engolido por uma malvadésima e monstruosa baleia azul (sim, aquela que, sabemos, não faz mal nem a piolho). Lição 2: na nossa época - o saudoso século passado -, politicamente correto de cu era rola. Lição 3: acho que entendi por que sempre fui fumante e bêbada. E, once again, espero que meus filhos tenham mais critério do que eu.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Brusca poesia da mulher cansada

Enquanto um dorme no carrinho
O outro escreve poesias em danoninho
Viva que pintamos as paredes de azul!

"Deve ser isso que chamam de felicidade"
Dizem as olheiras fundas de uma mãe sem sono
Sem vaidade.

Tenho preguiça de fazer versos e contar sílabas
E preguiça maior ainda de lembrar das regras de rima
Penso dez, quinze, mil vezes na lista exígua do aniversário.
Olha que tenho tanto a comemorar.
Isminha fez dois anos - ninguém sabe, ninguém viu,
Tom nasceu, pegou meningite, internou, voltou inteiro - ufa. Quem foi que soltou essa bufa?
Foi Domingos, o maltrapilho. Tá sendo adestrado, quatrocentos merréis por mês.
Ismael trabalha dia e noite, noite e dia. O que tem pra jantar, Dona Maria?

Eu fico assim, Homem Aranha numa mão, pequeno faminto noutra.
Vinte e nove anos. Vinte e nove anos, ela diz!
Nunca pensei que pudesse ser tão feliz.
Nunca pensei que pudesse ser feliz.

Penso na minha mãe, lá embaixo da terra. A essa hora já deixou de ser pele e osso pra ser só osso e roupa.
Não me lembro com que roupa a enterrei, mas lembro que foi de tênis.
Porque ela andava pra cima e pra baixo de tênis
E porque o pai dela, meu avô, era igual.
Daí meu cachorro vadio ganhou o nome dele
Porque é peludo igual - mas meu avô não tinha pedigree.
"Ponto pra ele!", diz meu marido, do alto da cadeira de juiz
E eu nunca pensei que pudesse ser tão feliz.

Do alto da cadeira, as bolas passam
Os dias passam
As amizades passam.

Meu deus, onde foi que eu errei?
E passa a lista...
.
.
.
.
.
.
.
.

Caralho, meu deus. Só perguntei por perguntar.
Ainda bem que não acredito em você.

Tom dorme no carrinho, Isminha no sofá.
E o brusco silêncio que invade a casa dá vontade de chorar.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Das pérolas


Esses dias ele deu pra aprender a falar. Desde então me surpreende com chuviscos diários de palavrinhas novas, ora com a dicção perfeita e quase solene, ora de um jeito que só ele entende e a gente tem que decifrar (90% dos casos, vale dizer). Mas tem coisinhas que quase brilham no escuro de tão lindas, até porque a gente nem sabe de onde vêm:

- "Dado, mamãe", quando entrego nas mãos dele a mamadeira cheia de suco;
- "Xenxa! Xaaaai!", me empurrando com força quando quer passar e minha pança e eu nos encontramos no meio do caminho;
- "Fooorte!", com cara de esforço absoluto, tentando levantar o sofá do chão;
- "Sistí o manda!", pedindo pra assistir pela enésima vez no dia ao DVD do Kung Fu Panda, que agora encabeça a lista dos preferidos;
- "É fada!", imitando o pai num momento de desabafo;
- "Cagaio", imitando a mãe num momento de desabafo;
- "Bingo!", chamando o Domingos e dando a risada mais gostosa do mundo das lambidas que leva na cara;
- "Chaaau, mamãe!", quando sai pra passear de carrinho, feliz da vida;
- "Linguicha!", devorando do paio à calabresa na hora da feijoada;
- "Teso!", pedindo mais uma fatia de camembert (que ele come inteiro numa sentada, fatia por fatia);
- "Aaaaaah, menininha...", assim, direitinho, quando vê passar uma gatinha. E pra isso ele já tem faro, claro. Porque divide os seres do sexo oposto em "menininha", "tia", "mamãe" e "vovó". E não perdoa - tem mais de 60, minha amiga, é vovó. Sem contar as que ainda estão na faixa dos 50 e não se cuidam. Pode esquecer. Enrugou, fodeu: é vovó;
- "Babagem!", quando faz uma cagada homérica e eu venho correndo e gritando "mas que porra você tá fazendo, filho?!!".

Das pérolas que os outros podem até achar normais, mas que a gente que é mãe se derreeeeeete de ouvir. E agora "xenxa", que tem gente me esperando no sofá pra ver Kung Fu Manda e comer pissa de linguicha.

sábado, 4 de setembro de 2010

IN NATURA

Dos pequenos momentos que fazem a vida valer a pena.

Erramos - Da Redação: nessas situações, é delicadíssimo usar a palavra "pequeno", mesmo que não tenha absolutamente nenhum trocadalho do carilho ou má intenção por parte da mãe aqui. Desculpa, filho. Troquem "pequenos momentos" por "bons momentos", por favor. Não quero pagar terapia vitalícia!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Os 8 meses e o SPAM


Tem hora que meu estômago vira. Aos 8 meses de gravidez, tenho cada vez menos SACO pro mundo. O pouco que tenho reservo pra quem merece – meu marido, que deu pra reclamar por hooooras da empregada que vê novela na TV da sala e come todo o doce de leite do pote, ou de mim, quando deixo de ir ao caixa automático do banco às oito da noite pra ir às oito da manhã (como se isso fizesse qual-quer diferença, em termos práticos, para qual-quer transação que precise ser feita – afinal o banco só abrirá às dez, faça chuva ou faça sol, É OU NÃO É?!); meu pequeno filho, cujos nem 2 anos de vida ainda lhe dão o direito de deitar e rolar sobre meu cansaço e minha irritação de gestante sem ar até a beira da meia-noite; e minha avó, que me atira farpas diárias de espanholice – seja porque eu faço tudo errado, seja porque tudo na vida tem um lado triste e ruim (e é esse que ela vê quando você conta qualquer novidade), seja porque ela insiste em te fazer mudar de ideia com relação a assuntos que são vitais e já estão mais do que decididos.

Pois bem, eles merecem, então eu respiro fundo e, Dios mio, não perco a ternura. E a mim já parece paciência suficiente, visto que tenho me movido como uma lontra gorda até pra mudar de posição na cama e sentido dores lancinantes nas costas toda vez que pego meu filho no colo ou luto pra colocar a coleira no Domingos, the fuckin’ mad dog; visto que tenho trabalhado em dobro pra poder ter ao menos uns dias de “tranqüilidade” pra cuidar de tudo que precisa ser cuidado antes da chegada do caçula; visto que todos os poréns das nossas vidas continuam pairando na cabeça e fazendo um peso filho da puta, sem que no entanto eu consiga tomar resoluções – e assim vou perdendo espaço pro tempo, pro silêncio, pros sem-noção e pra quem parece ter ainda menos paciência que eu.

Então não me venham falar merda. Não me tragam mais problemas e MUITO MENOS mensagenzinhas subliminares que falem de respeito ao ser humano, olhar para o próximo e o caralho. MUITO MENOS se tais mensagens vierem de gente que, eu bem sei, passa por cima do ser humano como se fosse COCÔ quando o assunto é o próprio umbigo (remodelado ou não). Deleto e ainda classifico como SPAM. Mirem que genial, by Wikipédia: “O termo Spam, abreviação em inglês de “spiced ham” (presunto condimentado), é uma mensagem eletrônica não-solicitada enviada em massa. Na sua forma mais popular, um spam consiste numa mensagem de correio eletrônico com fins publicitários. O termo spam, no entanto, pode ser aplicado a mensagens enviadas por outros meios e em outras situações até modestas. Geralmente os spams têm caráter apelativo e na grande maioria das vezes são incômodos e inconvenientes.”

Por essas e outras é que eu adoro a Wikipédia. E por essas e outras, no pré e no pós-parto, é que pretendo levar o conceito de SPAM às últimas consequências, na minha caixa de e-mails e na VIDA. Se me incomoda e me é inconveniente, VAI PRA PORRA DA LATA DE LIXO, sem dó nem compaixão. Porque de boas intenções o inferno tá cheio – e o meu já tá rolando na terra mesmo, em plena luz do dia, durante os anos que deveriam ser os melhores, pra todos os efeitos e apesar de tudo. Então me poupem os ouvidos e o estômago, se quiserem ser poupados da foice da rainha vermelha, ainda mais em tempos de erupção. E cortem-lhe a cabeça!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Crepúsculo que nada - meu negócio é a vampira Eli.

VIDEOTECA DA MULHER GRÁVIDA


Deixa ela entrar

Categoria: terror dramático teen vampiresco da melhor qualidade

País/ano: Suécia, 2008

Duração: 114 minutos


Todo mundo que tem um aborrecente em casa sabe que a onda agora é aquela história toda de vampiros. Principalmente se for UMA aborrecente, pois me parece que, bem mais que os meninos, as garotas é que estão nessa pra valer.


Na época do Harry Potter e suas intermináveis seqüências, não dei a mínima - até porque não tinha sombra de filho nem no calcanhar ainda e, convenhamos, estava muito mais atenta às novas marcas de cerveja do mercado do que à literatura/filmografia teen. Mas agora esses movimentos me chamam a atenção, por motivos óbvios. Então lá fui eu comprar um piratinha pra me inteirar dos porquês das unhas pretas, franjas escorridas em cima dos olhos e aquele quê lúgubre-afetado da galerinha under-15. Ainda não tive coragem de gastar meus 5 reais com Crepúsculo, mas apostei as fichas num filminho sobre o qual tinha lido qualquer coisa umas semanas atrás. Pois bem, amigos: se vocês forem pais de alguma pré-adolescente em dura fase de auto-descoberta (e sei que pelo menos 3 dos meus leitores mais assíduos o são), não sei o que ainda estão fazendo na frente do computador. Deixem ela entrar - assim mesmo, sem hífens nem regras castiças. Porque o filme é foda, triste, sangue nos olhos e desobediente a qualquer regra de boa convivência. Igualzinho à sua filha.


Depois dos 10 primeiros minutos, você já entende por que é que esse mundo vampiresco tem tanto apelo pra molecada. E você entende justamente porque, apesar de não ter lá tanta lembrança no seu cérebro capenga, seu coraçãozinho tem uma memória de elefante e te conta que você já passou por isso e se sentiu do mesmo jeito, ou até pior, quando foi a sua vez. Entrar na adolescência é descobrir a solidão - e não há pai ou mãe, por mais carinhosos e presentes que sejam, que salvem a gente disso. O sentimento de que você tá sozinho no mundo é tão forte e tão grande e tão arrasador que você se tranca a sete chaves, achando que a vida vai acabar. Então, já no começo de "Deixa ela entrar", você vai sentir vontade de sair correndo, arrombar a porta sagrada do quartinho de sua pré-adolescente e dar um abraço, lágrimas escorreeeeendo pelo rosto: "calma, filhota! Mamãe tá aqui!". Mas não faça isso. Pelo menos veja o filme até o fim.


Numa Suécia gelada e quase preta e branca da década de 80 (salva pelo gongo das blusas de lã coloridas), um menininho de 12 anos chamado Oskar, loiro e pálido feito pão Pullman, sofre com a maldade dos colegas filhos da puta na escola. Ele sonha em enfiar a faca no líder da micro-gangue, ensaiando a cena e o discurso sempre que se vê sozinho, por vezes e vezes a fio. E ele é tão só e tão quietinho dentro dessa solidão que você já fica com um nó na garganta e vontade de estripar a molecada com suas próprias mãos. Sei lá, tem adulto que é sangue frio, mas eu sinto um arrepio na espinha só de pensar no meu filho passando por uma dessas. E acho que o Ismael teria que sumir com todas as minhas facas de cozinha, não por causa do pequeno, mas da mãe.


Mas eis que surge na vidinha de Oskar uma amiga. O nome dela é Eli. Tão pálida quanto ele, mas com um plus cadavérico, ela aparece sempre do nada e nunca sente frio. Eli é uma vampira - coisa que a gente sabe desde o começo, em cenas pra lá de sanguinolentas e agressivas, mas que o protagonista só vai sacar lá pelos 2/3 de filme transcorridos. E a amizade, que começa tímida e silenciosa como os dois, logo fica forte - tão forte que vira paixão. Eli é capaz de comer chocolate por amor a Oskar, apesar de vomitar depois como se tivesse engolido veneno de rato, e Oskar é capaz de acobertar assassinatos por Eli, apesar de ficar horrorizado com o que seus olhos presenciam. Num mundo em que os adultos são seres totalmente alienados e as crianças estão desprotegidas de toda a maldade que vem de fora, eles se encontram e vivenciam - ele pela primeira vez, ela pela enésima, em sua vida milenar - a solidão a dois.


Gente, o filme é maduro, triste até o talo, cheio de delicadezas mortais que fazem a gente tremer na base. Mas ajuda a, mais do que entender, lembrar o que é passar pela adolescência. E ela passa, todos nós sabemos (menos para Eli, que vai viver isso até alguém enfiar uma estaca no seu peito de canibalzinha). Só que nossos filhos não sabem, afinal pra eles isso tudo é pra sempre e os anos ainda estão muito lá longe, tão longe que parece que nunca vão chegar. Então ok para as unhas pretas e os rocks emo mela-cueca; ok para a febre por tramas vampirescas e horas a fio de rebeldia e portas de quarto trancadas. Entender e aceitar a própria solidão é tão importante quanto descobrir, daqui a pouco tempo, que é gostoso pra dedéu sair dela. É daí que eles abrem a porta e deixam a gente entrar - de novo, e sempre. E é daí também que vão surgir outros problemas, tipo baladas, sexo sem camisinha, bebedeiras, companhias de-fo-der. Nossa. Que saudade dos tempos da aborrencência solitária.